Fome de poder e esse tal de craptalism

julho 21, 2017


Depois que cursei uma disciplina em que meu professor trabalhou O capital, a obra máxima dos comunistas comedores de criancinhas, durante um semestre inteiro, a minha vida mudou radicalmente.

Não que de repente eu começasse a entender tudo de Marx, até porque a leitura dos escritos dele exige muitos neurônios, mas passei a enxergar esse mundão onde vivemos de uma forma diferente. Eu não saia gritando OLHA A MAIS VALIA ALI, MEU DEUS pelas ruas, mas as coisas que nós discutimos em aula, as poucas coisas que realmente consegui entender, como o fetiche da mercadoria, passaram a ficar muito mais evidentes para mim.

Sempre digo que Marx me escolheu, não eu a ele. Isso porque cursei essa disciplina totalmente por acaso, porque eu tinha lido a súmula dela errado. Em sã consciência eu jamais pensaria em escolher uma disciplina que abordasse essa obra tão importante e alvo de tanta discussão ainda hoje. Quando me dei conta do erro, decidi que cursaria mesmo assim. Vamos ver o que vai acontecer, não é mesmo?




Para minha surpresa, eu fiquei encantada com o livro, mesmo não apreendendo tudo dele. Eu passava mais tempo ouvindo meu professor e meus colegas, e aprendi muito durante esse processo. No final do semestre, eu escrevi um artigo do qual me orgulho pra caramba, no qual eu discorria sobre a metáfora do capitalismo em um dos jogos de tabuleiro mais famosos da nossa infância, Banco imobiliário.

Desde o fim dessa disciplina, eu vivo para passar nervoso com o craptalism. Mais nervoso do que antes, pra falar a verdade. Agora uso aquele vocabulário que insuportável dos comunistas comedores de criancinhas e leio sobre a União Soviética/Rússia, um pouco para sanar minhas dúvidas pessoais em relação a essas duas formas tão diferentes de enxergar o Estado e as pessoas.

Vivendo e passando nervoso com o craptalism.


Quando eu decidi assistir Fome de poder, filme sobre a criação do império do McDonald's, tinha alguma noção de que passaria nervoso. Como eu estava enganada. O que passei foi um nervoso do tamanho de um Big Tasty, porque ali estava, mais uma vez, uma metáfora escancarada de tudo o que o capitalismo se trata: ambição, competição, chutar o coleguinha e mordê-lo também.

Tudo começa quando Ray Kroc (Michael Keaton), um vendedor de equipamentos para cozinha, conhece a lanchonete dos irmãos McDonald's, Dick e Mac. Juntos, os maninhos criaram um sistema que entrega lanches em 30 segundos. A genialidade deles é realmente admirável, principalmente na cena em que eles contam para Kroc como tudo aconteceu. Encantado com tudo aquilo, Ray quer se juntar ao sucesso dos maninhos e lhes propõe uma franquia. Relutantes, eles aceitam. E aí, é claro, os problemas começam.

Até agora eu não sei exatamente qual era a intenção do diretor, John Lee Hancock, ao fazer esse filme. Eu poderia até arriscar que ele quer mostrar que, no fim das contas, se você quer sobreviver na selva e ser bem-sucedido, você precisará inevitavelmente puxar tapetes. Ou então exaltar a pessoa de Ray Kroc, um cara que roubou a ideia de outros caras e os deixou com uma mão na frente e outra atrás.

O que ficou bastante evidente para mim durante o filme é como o McDonald's representa tão bem os EUA, tanto no aspecto meritocrático da coisa ("você quer, você pode") como no aspecto familiar. A gente sabe que os norte-americanos, em sua maioria, são conservadores. Ray Kroc sabia disso e usou esse fato a favor da franquia que ele tinha acabado de criar. Todo o design do restaurante, nos anos 50, foi pensado para que as famílias fossem as frequentadoras principais do lugar. Na época, os drive-thrus eram lugares majoritariamente de jovens motoqueiros e daquela galerinha doida tomando Pepsi e ouvindo rock n'roll. A família tradicional era o maior alvo da franquia nos anos 50/60.



É muito triste ver os irmãos McDonald's tomando um pé na bunda e ficando sem o direito de até mesmo usar o nome McDonald's. O acordo verbal estipulado entre Ray e os maninhos também melou, ou seja, eles não receberam os royalties a que tinham direito. No fim das contas, o que Fome de poder mostra é que Dick e Mac não tinham culhões para levar um negócio tão ambicioso adiante. O mundo é daqueles que são mais espertos.

A questão de roubar uma ideia e moldá-la segundo sua convicção me lembrou a história por trás da criação do Banco Imobiliário. O jogo foi, na verdade, inventado por uma mulher, Elizabeth Magie Philips. O objetivo dela ao criar esse jogo era explicar o sistema de arrendamento de terras para as pessoas. The landlord's game foi o nome escolhido para o jogo. Porém, como existe craptalism, existem patentes e apropriações. O jogo de Elizabeth foi sendo conhecido e modificado até que a Parker's Brothers pegou toda essa salada, patenteou e transformou no Monopoly que conhecemos hoje. O nome de Elizabeth como a mentora de toda essa ideia morreu, assim como o nome dos irmãos McDonald's. O crédito é dado a Parker's Brothers.

O primeiro protótipo do que seria o jogo Banco Imobiliário. Ele foi criado por Elizabeth Magie.


O impacto do McDonald's é um negócio doido. Atualmente estou lendo um livro chamado O túmulo de Lênin, que discute a queda da União Soviética. Nele, fica bastante evidente como os arcos dourados simbolizam o capitalismo e o consumismo, pois os russos praticamente piraram quando a rede de restaurantes chegou lá, no começo dos anos 90. O restaurante povoava o imaginário daquelas pessoas, que formaram filas para comer o primeiro hambúrguer de suas vidas. Era como se a modernidade finalmente tivesse chegado à Rússia. Acho que muitos de nós já comeram alguma vez no McDonald's, e eu ainda lembro como se fosse hoje quando o lanche custava quatro reais. Meu pai me levava muito lá, então esse lugar tem algo de familiar e emocional mesmo.

Uma coisa que me chamou bastante a atenção no filme é a questão da comida. Dick e Mac faziam um controle rígido de qualidade em relação aos alimentos que figuravam nos lanches do McDonald's. Lá pelas tantas, Ray propõe usar uma solução em pó para fazer milkshake, uma vez que os custos para refrigerar sorvete eram altos demais. Os irmãos respondem: "Mas isso não é milkshake". É no mínimo irônica toda essa preocupação com a qualidade de alimentos, principalmente se pensarmos o que veio depois, ou seja, todos os escândalos em que a empresa se meteu de lá pra cá. Isso que nem falei sobre a questão do fast food em si, do impacto desse tipo de alimentação na nossa vida, coisa na qual vivo pensando frequentemente.

Fome de poder é um filme interessante e nos deixa pensando que rumos o McDonald's teria tomado sem a presença de Ray Kroc. Provavelmente rumos muito diferentes, até porque os irmãos Mc não tinham interesse em franquear e virar uma rede internacional de restaurantes. De qualquer maneira, é um filme bacana pelo registro histórico, além de ser uma grande aula sobre os poderes do capitalismo durante 1h50 de trama.

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