Enquanto a minha máscara de argila verde seca, o incenso queima do meu lado e a Christine McVie canta Honey Hi, percebo como pequenas coisas que me acalmam, coisas tão simples. Fazer essas três coisas estão sendo uma bênção para mim, especialmente após um dia tão corrido e com tanto trabalho. Mas nem sempre consigo detectar coisas que abaixam meu nível de ansiedade.

Acho que o aspecto mais odiável da ansiedade é que ela não tem hora para acontecer. Para uma pessoa obcecada por controle como eu, isso é um tormento. Se eu pudesse colocar na agenda, organizar uma tabela, tudo seria mais fácil. Infelizmente não funciona assim, e ainda estou aprendendo a conviver com esse monstro que habita dentro de mim.

Minha primeira de crise ansiedade foi inesquecível, talvez pelo fato de eu ter ido parar no hospital por causa dela, sem saber o que estava acontecendo. Ninguém sabia o que estava acontecendo, eu não estava em casa e minha mãe atravessou uma cidade para cuidar de mim. Quando a doutora levantou essa hipótese, eu não conseguia acreditar que a sensação real de que eu estava para morrer se chamava transtorno de ansiedade. Ela aconselhou que eu procurasse ajuda, o que demorei muito a fazer. Isso só foi acontecer quando minha ansiedade chegou a níveis alarmantes.

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Por indicação da Mia, comecei a ler O retrato de Dorian Gray, depois de ter me afastado durante muito tempo dos ditos clássicos. Acho que meus motivos têm a ver com o fato de que a faculdade fez com que eu odiasse esse tal de cânone, que me obrigava a gostar de obras cuja dimensão eu ainda não podia entender, ou seja, não tinha como ter qualquer opinião. No entanto, a propaganda boa da Mia fez com que eu repensasse essa ideia de que estava fadada a detestar clássicos. O resultado é: eu estou adorando demais esse livro, não consigo parar de ler.

A cada página, sinto que esse livro precisava de uma certa maturidade da minha parte para que eu pudesse apreciá-lo. Essa não é apenas a história de um homem cujo retrato envelhecia e ele não. Na verdade, o negócio é sobre beleza, sobre envelhecer, as coisas efêmeras da vida, sabe? Eu não sou especialista em literatura, mas minha impressão é de que Oscar Wilde está jogando na tua cara o quanto, já naquela época, as pessoas eram preocupadas com a beleza do mundo e não em envelhecer. Não envelhecer valia a arrogância de Dorian, valia sua postura de "joga fora no lixo" a cada vez que uma coisa perdia a graça, porque a vida é uma eterna reinvenção de coisas bonitas.

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Eu gostaria de não parecer ter 16 anos, mas não posso evitar. Quando se trata de ser fã de alguém,  sou, sim, uma adolescente. Não tem meio termo para mim: ou eu amo muito e mergulho fundo na vida da pessoa ou ela não me causa nenhuma sensação.

É engraçado, todas as coisas que eu amei pareceram ter um prazo de validade determinado. Poucas coisas nesta vida continuam me causando a mesma sensação de ter 16 anos quanto Nathalia Timberg. Acho que vocês já sentiram o teor, a seriedade da coisa neste post que escrevi sobre ela.



Na realidade, a parte mais séria desse negócio todo de fangirl eu deixei de contar por motivos de vergonha. Se um dia eu tiver netos, eles pedirão para a vovó contar a história do dia em que ela perseguiu a Nathalia Timberg, que estava em uma cadeira de rodas por conta de um acidente no palco.


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Eu tenho gostos peculiares, você não entenderia.

Nunca achei que uma frase tão peculiar de Christian Gray poderia me descrever tão bem. No entanto, ao invés de um quarto cheio de brinquedos sexuais, eu tenho meus CDs e minhas playlists para comprovar o que digo. Quando éramos adolescentes, ser hipster era algo que todos buscávamos, ainda que secretamente. Nós ouvíamos bandas de garagem, bandas que ainda não eram famosas. Se ficavam famosas, nós desprezávamos. Era um campeonato para ver quem aparecia com a novidade mais rápido.

Durante minha adolescência, coisas estranhas aconteceram. Eu tinha o Soulseek, um programa de download de músicas e foi lá que eu formei meu caráter musical. Também tive um amigo, um cara mais velho, que me mostrou boa parte do que conheço atualmente sobre música brasileira. Ele me indicava os álbuns, eu os ouvia e nós discutíamos sobre eles. A melhor parte era criar teorias sobre as músicas, o que teria motivado os cantores a escreverem de tal maneira. No entanto, um pedaço meu cresceu ouvindo Farofa fa fa em uma fita cassete velha da minha mãe, e eu não podia negar essa parte do meu caráter. Por isso, minha adolescência foi uma mistura de bizarrices, de Discoteca do Chacrinha à Valsa do Danúbio Azul, passando por Fuscão preto. Meu Deus, não é revigorante poder gritar FUSCÃO PRETOOOO, VOCÊ É FEITO DE AÇO, FEZ MEU CORAÇÃO EM PEDAÇOS?  Eu não tinha como ser uma pessoa coerente na vida com um gosto incoerente desses.

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Chegou aquele momentinho do BEDA em que começo a ficar sem ideias para pautas, então decidi copiar descaradamente este meme do blog da Michelle, porque eu adoro perguntas e me sinto no sofazão da Hebe, mesmo falando sozinha. Acho que consigo responder em uma hora e postar (de novo) com as calças na mão.



Qual foi a última coisa que você escreveu em um papel?

A minha lista de coisas para fazer.

O que está sempre na sua bolsa?

Remédios para dor de cabeça e ressaca (MUITO VELHA, SIM) e um bom livro. Às vezes carrego fones de ouvido, mas é difícil.

O que você costuma pedir em um café?

Café preto e um salgado. É difícil eu pedir doce, porque tudo para mim parece exageradamente doce, não sei explicar.

Quais websites você visita diariamente?

O meu amado Valkírias do qual faço parte, o Delirium Nerd, o Cine Suffragette, alguns blogs de amigos que conheci no Twitter e o You Tube para dar aquela espiadinha no meu canal, o Cine Espresso.

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Sou a pior pessoa para falar sobre librinhos que vocês provavelmente conhecerão, mas como minha vida não é o suficientemente interessante para dar um post do BEDA, a gente vai falar sobre literatura mesmo.

Depois de passar muito nervoso com O conto da aia, um livro sobre o qual não me sinto nem apta para falar a respeito, decidi ler o último dos títulos que comprei na abençoada feirinha da USP: A mulher calada, de Janet Malcolm. Por que não resolvi ler esse livro antes? Não sei. Tinha tudo para ser o primeiro da minha lista, pois o vendedor da Companhia das Letras fez uma propaganda fabulosa sobre ele. No entanto, acredito na teoria de que cada leitura tem uma hora para acontecer e não era hora de eu ler A mulher calada.

A mulher calada do título é Sylvia Plath, poetisa que Janet utiliza para discutir a questão dos limites da biografia. Ao se suicidar de forma trágica, enfiando a cabeça dentro de um forno e ligando o gás, Sylvia selou um mito. Sua poesia e sua prosa, simbolizada por A redoma de vidro, tomaram outras proporções. É como se eles funcionassem como um aviso ao que aconteceria mais tarde, em 1963, na noite de inverno em que Plath decidiu terminar com sua vida. As pessoas passaram a olhar com curiosidade para ela, querendo saber o que havia, talvez, motivado essa atitude. 

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O ano é 2017 e há quem comente no canal do Cine Espresso que odeia cinema francês:

Cinema francês é tedioso

Nossa, mas a gente não entende nada do que eles fazem

O filme acabou e eu não entendi o final

Que história sem pé nem cabeça

KKK, cinema francês, eu hein

O pior é que não posso desmentir o que essas pessoas dizem, porque boa parte disso é verdade. Os filmes franceses são ~tediosos porque simplesmente não seguem a lógica de um filme de Hollywood. A sensação de que a trama é arrastada é porque os meios narrativos do cinema europeu são completamente diferentes do que estamos acostumados. Você precisa estar na vibe para assistir a um filme francês. Não dá para colocar um François Truffaut para rodar e não esperar uma torrente de choro. No entanto, isso não quer dizer que todos os filmes franceses sigam essa cartilha de sem pé e nem cabeça e tédio. Há espaço para tudo no cinema francês, inclusive para filmes mais engraçadinhos, com o Sazon francês, é claro.

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Ontem flopei no BEDA, mas a gente faz de conta que nunca aconteceu e continua, risos.

Minhas referências LGBTs nunca foram muitas, como é de se esperar em uma sociedade heteronormativa. Mesmo depois que saí do armário, eu me sentia muito perdida porque não conseguia me ver em nenhum personagem da televisão ou nenhuma celebridade. Isso se deve ao fato de que meus gostos são um pouco diferentes, assim como minha relação com a cultura pop. Minhas referências não são da minha geração, e não havia ninguém dentro do meu espectro de gostos que tivesse desempenhado um papel fenomenal no meu empoderamento enquanto lésbica.

Até o dia em que eu sentei para assistir ao primeiro capítulo de Babilônia com minha mãe. Eu já tinha ouvido falar em toda ~polêmica que o personagem dela iria despertar por ter um relacionamento sólido com nada mais, nada menos que Fernanda Montenegro. Confesso que não dei bola, eu estava esperando mais uma flopagem, mais uma representação torta. E aí, como já contei neste texto para meu querido Valkírias, o inesperado aconteceu: ela beijou a Fernanda Montenegro no PRIMEIRO CAPÍTULO DA NOVELA. NO QUARTO. ELAS SE BEIJARAM NA PORRA DO QUARTO.


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Um das coisas mais bonitas que levei do curso de Letras foi a sementinha que minha professora de literatura russa, Denise, plantou no meu coração.

Estávamos em 2014, o ano da formatura. Eu tentava juntar dinheiro desesperadamente com o famigerado Café dos Formandos. Ao mesmo tempo, cursava as últimas disciplinas (descobri que só nós falamos cadeiras por aqui), talvez no piloto automático, porque queria muito fechar aquele capítulo. Uma delas, Literatura russa em tradução, eu escolhera pelo fato de ser do grupo de disciplinas alternativas obrigatórias do curso. Não imaginava que pudesse ser bom, uma vez que todas as minhas experiências com literatura na universidade me fizeram odiar tudo o que meus professores me apresentavam.

E a surpresa é que foi tão bom que a sementinha da literatura russa foi plantada em mim e desde então deu muitos frutos. O último deles foi o término de O túmulo de Lênin, um calhamaço de mais de 700 páginas sobre a queda da União Soviética. E se não fosse pela Denise, jamais teria ido atrás desse livro, muito menos de todos os outros autores russos que li até hoje.

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Ao contrário de muitas pessoas, não sabia o que era BEDA. Eu passei um ano inteiro assistindo aos vídeos da Tatiana Feltrin sobre esse tal de BEDA, sem sequer criar vergonha na cara para procurar o que era.

Pois bem, finalmente descobri e sai da época das carroças! O BEDA vem de Blog Every Day in August. A ideia é postar um texto por dia neste mês, conhecido por passar tão devagar. Decidi aderir à iniciativa porque não me aguento, eu também quero experimentar mais uma vez o mundo da blogosfera do qual sequer me sinto parte.

Já dá pra gente considerar este como o primeiro texto do BEDA?


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Eu estava descobrindo o cinema francês das antigas, a etapa seguinte à minha descoberta do cinema clássico, quando a encontrei. Ela era diferente de tudo o que já tinha visto até aquele momento. Uma beleza nada comum, uma voz rouca por causa do cigarro. Um cigarro na boca, um sorriso irônico. Ela, Jeanne Moreau.

Não há melhor momento do que aquele em que você mergulha fundo na existência de uma pessoa. Foi o que fiz com Jeanne. Eu comecei a assistir um filme atrás do outro. Não tinha tempo para absorvê-los direito, porque queria mais. Mais, mais, mais. Apesar de não refletir muito sobre o que eu estava assistindo, tinha certeza de que estava diante de uma atriz fabulosa, ousada para não dizer o mínimo. Ela aparecia tendo um orgasmo ao som de Brahms e para uma garota como eu, acostumada ao recato dos filmes clássicos norte-americanos, aquilo foi o céu.


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