Nós mudamos, mas nossos ídolos não: o caso Mireille Mathieu

julho 10, 2017




Não é simplesmente triste demais quando uma pessoa de quem a gente gosta muito de repente se torna tudo aquilo que você abomina? Dor maior que essa só se a pessoa em questão sempre tiver sido sido, e você só percebeu quase dez anos depois? Pois é, história da minha vida. 

Ou melhor história da minha vida e a da Mireille Mathieu.


Mireille Mathieu é uma das maiores cantoras francesas do século XX, muito conhecida por encarnar uma versão moderna e menos porra louca da Edith Piaf. Mimi, como é conhecida pelos íntimos e como eu a chamei durante muitos anos, era um dos grandes motivos pelos quais eu queria aprender francês em 2008 e 2009. Queria desesperadamente entender o que as letras dela diziam, embora tivesse alguma ideia, a gente sabe pelo tom de voz, né? E pelo dela só podia concluir que se tratava de sofrência.

Sem saber Mireille Mathieu me ensinou o vocabulário básico de suas músicas. Um breve estudo feito de ouvido por mim revela que algumas palavras são recorrentes, como pardonner (perdoar), laisser (deixar), amour (amor), haine (ódio) e passé (passado). Realmente, Mimi não nega o signo sob o qual nasceu, câncer, é claro. Com esse vocabulário parco eu fiz descobertas magníficas durante a faculdade. Eu assistia às aulas de francês e lembrava que já tinha ouvido Mireille cantando aquelas palavras. Me sentia o próprio Einstein.

A minha regra quando descubro uma nova obsessão é mergulhar fundo nela e ir até o fim. Um pouco como os versos de Jezebel, uma das tantas canções de Piaf que Mimi regravou: "je ferais le tour de la terre". Em bom português, esse verso significa algo como ir até o fim do mundo. Foi exatamente o que fiz com Mireille Mathieu, até o ponto de eu começar a descobrir alguns detalhes sobre sua vida que melaram completamente o amor que eu tinha por ela.



Na época mais fervorosa de devoção à Mireille Mathieu, eu começava a dar meus primeiros passos na leitura em francês. Isso não me impediu de ler sua biografia ou qualquer reportagem que caía na minha mão, graças aos digníssimos blogs franceses que postavam tudo sobre ela. Li tantas coisas, mas não tive tempo para absorver tudo. Queria mais e mais. As mais de 4000 fotos dela que eu tinha no meu computador não eram suficientes.

Os anos se passaram, e guardei Mireille Mathieu em um cantinho especial no coração. Joguei a chave fora, porque precisava sair do que ela representou na minha vida. No entanto, ao voltar para essa época, os fatos foram simplesmente aparecendo. Coisas que eu jamais teria percebido aos 18 anos, em uma época em que eu respirava e comia Mireille Mathieu. Coisas que minha alma problematizadora de hoje teria questionado sem pestanejar.

Para começar, havia a questão do empresário dela, Johnny Stark. Ele foi o responsável por descobrir Mireille em Avignon, cidade do sul da França, onde ela vivia com os 11 irmãos. Pensaram em uma história estilo Cinderella feat Pigmaleão? Pois acertaram. Stark a salvou da miséria e da pobreza intelectual, a levou para se apresentar em um programa chamado Le jeu de la chance e, de repente, os franceses elegeram Mimi como a sucessora de Madame Piaf.

Mireille e seu empresário, Johnny Stark.


E se estamos falando da história de Pigmaleão, é claro que rolou uma transformação radical, um extreme make over de Mireille. Ela aprendeu de tudo, até a comer com os talheres adequados, assessorada por seu mentor. Em diversas entrevistas dos anos 60, ela aparece tímida, acuada em um cantinho, deixando Johnny falar tudo por ela. Quando tomava a palavra, Mireille sempre dizia que fazia as coisas de uma determinada forma porque Stark achava que era melhor. E se ele dizia que era melhor, quem poderia dizer que seria pior?

Hoje a minha cabeça problematizadora só consegue enxergar a tremenda cilada que essa relação entre a pupila e o empresário deve ter sido. Não nego os boatos de que shippei muito os dois, aliás, até hoje acredito em um envolvimento amoroso. O fato é que a relação entre eles era bastante problemática, a imprensa metia o pau, pois acreditava que Mireille era uma marionete nas mãos do empresário. Será? Eu acho que sim.

Johnny Stark também empresariava Sylvie Vartan, outra cantora de quem eu gosto pra caramba. É interessante observar como ele gosta de criar caixinhas para suas cantoras. Enquanto Sylvie era o epíteto da sensualidade, Mireille usava vestidos até o pescoço, compridos até dizer chega. Eu nunca vi Sylvie bancando Mireille ou vice-versa, no sentido de saírem dessas imagens criadas. No caso de Mimi, sua imagem estava atrelada à Madame Piaf, e a gente sabe o que isso quer dizer: finesse e fidelidade aos franceses.

Sylvie Vartan, uma imagem oposta a de Mireille.


Ao associar sua imagem a toda essa finesse, Mireille renunciou ao amor. Até hoje, mesmo com quase 70 anos, em toda santa entrevista vem a pergunta sobre filhos e questões amorosas. É uma curiosidade da imprensa e do público, pois em trocentos anos de carreira, ninguém nunca viu Mireille com um sequer sopro de envolvimento amoroso. Quanto à maternidade, ela declarou inúmeras vezes que não teve filhos para não atrapalhar a carreira. Ninguém, é claro, acredita nisso. Como pode uma mulher dar mais importância à sua carreira? Mimi deu, sempre deu. No entanto, a minha dúvida é se essa importância é algo dela ou criado para ela. Questões.

Ela mantém uma imagem imaculada, fiel ao público que a tirou de Avignon. As manchas foram muito bem apagadas, como a vez em que ela tentou o suicídio com pílular. Ninguém sabe por quê. Até hoje eu não acredito na reportagem que tenho, que a mostra saindo do hospital mais pra lá do que pra cá. Era extremamente difícil ver Mireille enquanto mulher, como alguém sujeita às pressões sociais o tempo inteiro. Mas a verdade é que entre tantas imagens, tantas Mireilles como as da abertura dos programas especiais que ela fazia nos anos 70, os Top a Mireille Mathieu, a gente não sabe mais quem é a real Mireille. 

Outro """suposto""" escândalo na vida de Mireille está relacionado à música Rencontres de femmes. Segundo a biografia escrita por Emmanuel Bonini, essa canção causou rebuliço porque havia uma insinuação de relacionamento homossexual entre mulheres. Já adorava essa canção mesmo antes de saber disso, agora amo duas vezes mais. Uma situação como essa mostra aquilo que eu não conseguia ver em 2010, ou seja, como Mimi estava atrelada ao conservadorismo. O público dessa cantora maravilhosa é formado pela camada mais nacionalista da França. Socorro?!

O conservadorismo de Mimi é algo que nem Freud explica, porque, como eu já disse no Twitter, o público dela é formado por LGBTs+. Majoritariamente. São essas pessoas que entregam flores a cada santo show e ficam cantando Santa Maria de la mer em frente ao Olympia. Mas Mireille liga? Liga, não! Tanto não liga que ela fez declarações bastante problemáticas sobre o casamento igualitário em um programa formado por apresentadores LGBT+, RISOS. O que dizer?

Você acha que terminou? Não! Porque a pegada conservadora continua, pois Mireille é uma fiel defensora da França e suas raízes. Não tinha como não ser, pois ela veio de uma das regiões mais conservadoras do país neste aspecto. Nos anos 80, muito antes da palavra Frexit ser criada e o conceito "saída da França da UE" também, uma ode ao nacionalismo já tinha sido criada por Mathieu: Made in France. A letra dessa música é um festival de versos que poderiam muito bem estar na boca de Marine Le Pen, como:

Eu entendo porque eles preferem o whisky feito na Inglaterra/ Mas eu tenho uma queda pelo champagne fabricado na França 
 Minha Nossa Senhora.

Em 1991, o empresário dela faleceu, e a carreira de Mireille entrou em outra fase. Sua irmã, Matite, começou a empresariá-la. Até hoje eu não sei se isso foi bom ou não. A verdade é que as maninhas Mathieu ainda acreditam no poder que Madame Piaf tem para a carreira de Mimi, pois de 1991 para cá já foram três, eu disse três, álbuns com regravações de canções da Môme. Não há amor de fã que aguente isso, minha gente! Como diria uma amiga minha: "quando a Mireille vai abaixar o tom das músicas?". Ela ainda canta em um tom que relembra os anos 80, época em que conseguia fazer AQUELE AGUDO QUE ME ENSURDECEU DE UNE FEMME AMOUREUSE. O melhor agudo que você respeita, mas a voz envelhece, e Mimi ainda não aceitou esse fato.

Dito tudo isso, a pessoa que eu sou hoje escuta todas as canções de Mimi Momona com muita saudade. Saudade porque eu era muito tapada para enxergar todos os problemas elencados acima. Eu me sinto triste ao pensar que ela é uma fã do Vladimir Putin, mas vida que segue. A vida é cheia de contradições, por exemplo, ela tem uma foto com a Lady Gaga. Vai entender.

Pra não dizer que não falei de flores, eu fiz uma pequena playlist para você que, mesmo após todas as minhas considerações acima, ficou curioso para conhecer essa grande cantora:

1. Paris en colère (sim, mais uma música exaltando a França, mas eu gosto, vida que segue)

2. New York, New York (a música que me fez conhecê-la, uma versão francesa bem bacana)


4. Der Pariser Tango (eu amo tanto imitar essa dancinha dela, also, a Alemanha é DOIDA por ela, assunto para outro texto)

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2 comentários

  1. Ótimo post, a experiência de aprender um idioma por conta de um artista é realmente marcante, passei por algo semelhante com Dalida (sem decepções ainda). Mireille com todas as suas contradições se tornou aquilo que talvez tenha almejado: Um símbolo para o mal ou para o bem de uma França que não existe mais ou que talvez nunca tenha superado o luto por Piaf. Ambas deusas a serem reverenciadas para todo o sempre.

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    1. Oi, Felice! Obrigada pelo comentário primeiramente. Eu adoro a Dalida, aprendi muito com as canções dela. Você chegou a ver o vídeo dela com a Mireille, "Les petites femmes de Paris"? Adoro, é super divertido, admiro muito o carinho que elas sentiam muito uma pela outra. Realmente, a experiência de aprender um idioma por conta de um artista é fantástica! agora quero muito aprender sueco por causa da Ingrid Bergman, mas ainda não consegui estudar direito.

      É verdade, Mireille se tornou exatamente isso que você colocou. Acho que ela deseja representar essa nostalgia mesmo, mas é engraçado ver como ela investiu uma carreira na Alemanha e na Rússia, talvez essa mesma França já esteja cansada dela. Será mesmo?

      Apareça sempre por aqui!

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