Parece que escolhi os livros mais pesados da vida para ler em 2017, tudo de uma vez só. Depois de encerrar O retrato de Dorian Gray mais desgraçada da cabeça impossível por causa dessa coisa chamada envelhecer e morrer, fui procurar mais sarna para me coçar, dessa vez lendo A insustentável leveza do ser.

Pois, veja bem, já podemos colocá-lo como o terceiro livro que me fez chorar nesta vida. Os outros foram O amante, de Marguerite Duras, e A casa dos espíritos, de Isabel Allende. Quando um livro consegue me arrancar lágrimas, sei que valeu a pena, porque eu guardo todas as minhas lágrimas para chorar em filme.

A insustentável leveza do ser foi o segundo livro indicado pela Mia, e parece que ela conhece meu gosto, mesmo não me conhecendo pessoalmente. Que livro, meus amigos. Particularmente, não acreditei que fosse gostar tanto dele, pois me considero um pouco limitada quanto à profundidade de determinadas obras. Em outras palavras: burrona demais para entender. No entanto, não só consegui apreender as referências de Milan Kundera à música ou à filosofia nesse livro como elas fizeram tanto sentido para mim que soava como se eu estivesse conversando com minha terapeuta.




O título do livro sempre me fascinou, e ele resume, para mim, a discussão do livro. Logo de cara eu já sabia que esse seria ganha pelo senhor Kundera, porque ele nos faz a seguinte pergunta:

O que vale mais? O peso ou a leveza?

Essa é uma questão bastante subjetiva. Milan coloca que, por exemplo, Parmênides considerava o peso uma coisa ruim. Outros consideram a leveza algo ruim. Depende. Essa questão atravessa o livro e é impossível você, em algum momento, não se identificar com algum personagem. Durante a leitura, eu pensava como a Tereza me resumia enquanto maneira de encarar a vida: com peso. Às vezes tenho a mesma sensação que ela tinha, a de ser um peso. Mas não para os outros, e sim para eu mesma. É difícil me carregar pela vida, porque muitas vezes eu assumo o peso do mundo nos meus ombros. Quando você assume o peso do mundo nos ombros, como se fosse a sua cruz pessoal, encarar tudo com leveza é difícil. Aquele peso incomoda, mas você não quer tirar a mochila das costas. Se você a tira das costas, a sensação de leveza é assustadora demais. Porque significa olhar para si, encarar você e seus desejos. Às vezes viver com peso é fácil, pois você assume o alheio, você não pensa naquilo que deseja. Naquilo que sente.

Porém, mais do que nunca na vida, eu desejo retirar a mochila das minhas costas - nem que seja um pouco. Sendo assim, quando me deparei com a personagem Sabina, fiquei encantada. Como não se encantar com seu desprendimento? Ela simplesmente decide e vai. Não seria o máximo se pudéssemos ser Sabina o tempo inteiro? Eu adoraria. Sabina representa um ideal que desejo atingir, talvez um caminho longe, mas não longe como quando comecei a percorrê-lo. Ir na terapia já é assumir que a mochila é pesada demais para minhas costas tão pequenas, e fico muito contente com essa constatação. Já me permito carregar menos peso, a não encarar tudo com tanta seriedade, porque meu corpo já demonstra sinais de que não aguenta mais isso. O coração bate acelerado, eu suo, tenho ansiedade. A ansiedade é o maior sinal de que meu corpo está se recusando a carregar o peso da vida nas costas.

Por isso, fiquei encantada por A insustentável leveza do ser. É incrível encontrar alguém que pensou na questão leveza e peso antes de você, que parece entendê-la tão bem. Além disso, meus amigos, as referências que este homem Milan Kundera faz para ilustrar peso e leveza são maravilhosas. Há espaço até para música clássica, o que deixou esse coração aqui quentinho. Sou apaixonada por música clássica e ver uma referência a Beethoven me arrepiou. Me lembrou a última peça de Nathalia Timberg a qual assisti, também sobre música clássica e Beethoven. A diferença é que a peça dela se debruça sobre as 33 variações da valsa de Diabelli e Kundera fala sobre o es muss sein.

Es muss sein significa "tem que ser assim". No livro, Tomas se pergunta repetidas vezes se tinha que ser assim. Tem que ser? Tem, tem que ser assim! É quase como se você ouvisse a música de Beethoven enquanto a personagem se questiona sobre o "tem que ser assim" da vida. Olha, só não chorei tanto quanto o dia em que ouvi Beethoven e assisti Nathalia Timberg atuando, os dois ao mesmo tempo. Chegou muito perto. Sobre a minha própria vida, eu ainda estou me perguntando es muss sein? Será?

O livro se torna mais mágico ainda por fornecer um retrato em cores vivas do que foi a Primavera de Praga, em 1968, ano em que a história de A insustentável leveza do ser começa. A Checoslováquia querendo a independência, as tropas russas ocupando Praga. Gente denunciando gente. Gente foda perdendo o emprego e virando lavador de vidraça, não vou dizer quem. Kundera praticamente nos abre a janela para questionar se o comunismo afinal foi tão bom assim. Em diversos momentos da leitura pensei em O túmulo de Lênin e em tudo o que o autor falava sobre os países de dominação russa. Sobre como eles tiveram de lutar com todas as forças para se libertar do jugo do Kremlin. Se você ama história, principalmente sobre o comunismo, irá adorar A insustentável leveza do ser.

Ontem comecei a ler O primeiro círculo, de Soljenítsin, e não serei se terei estruturas necessárias para continuar. Não sei se aguento mais um livro punk, tudo o que eu queria era uma leitura leve, mas elas nunca me interessaram muito. A proximidade entre o que Soljenítsin e Kundera escrevem é fantástica, dois caras devastados pelo comunismo. Ambos exilados. Ambos escrevem com uma espécie de humor feroz do qual gosto muito. Vamos ver aonde essa viagem vai me levar.

Sobre o BEDA:

Muito que bem, chegamos ao último dia de BEDA. Foi o primeiro ano em que participei, teve flopação, mas quer saber? Não acho que tenha sido tão flopado assim. Achei que não teria mais fôlego para blogar tanto, mas veja bem, temos 16 textos sobre os mais variados assuntos. Textos que escrevi enquanto escrevia para o Cine Suffragette e o Valkírias, então estou muito contente. Nesse meio tempo, trabalhei em dois projetos de tradução ao mesmo tempo, indo dormir tarde da noite, mas sempre com tempinho de dar meus cinco centavos por aqui. Foi bom, foi ótimo.

Acompanhei o BEDA de outras pessoas maravilhosas também:

Diário das pequenas coisas: a Luana tem uma maneira leve e calma de escrever, e eu adorei descobrir o blog dela. Ela também escreve para o Valkírias e seus textos são delicados, cheios de observações poéticas, é lindo mesmo. O texto que ela escreveu sobre o filme La vie foi um dos meus favoritos, muito porque ele mostra a leveza depois de uma situação de muito peso. Trata-se da história de três mulheres judias que se conheceram em um campo de concentração e sobreviveram a ele. Elas se reencontram e a trama mostra uma maneira de fazer um brinde à vida, mesmo após uma situação tão extrema como essa.

Lunatic pisces: listas apaixonantes é o que a Michas sabe fazer muito bem e nesse BEDA vivi para ler as dela. No entanto, meu texto favorito é a conversa que ela teve com a cabeça dela sobre querer escrever horrores para o blog e não conseguir. Passei pela mesma culpa diversas vezes, por estar cansada, por estar sem ideias e a leitura desse texto foi reconfortante.

Wink: escrever para o Valkírias me deu a chance de conhecer o trabalho maravilhoso de algumas meninas e a Mia foi uma delas. Como eu disse lá em cima, ela parece conhecer meu gosto literário, mesmo sem me conhecer pessoalmente. Ela cumpriu esse BEDA do começo o fim, então tem texto para tudo quanto é gosto. Os meus favoritos foram algumas resenhas que ela fez, com destaque para A guerra não tem rosto de mulher, um livro mais do que necessário para qualquer pessoa que acredite que as mulheres só participaram das guerras como enfermeiras, risos.


O que eu escrevi nesta semana:

Sentimentos são os únicos fatos quando escrevemos sobre aquilo que amamos muito e é isso que está estampado na cara do meu texto sobre a romantização do relacionamento abusivo na série de televisão Dallas. Quem me conhece sabe que, em 2013, conheci esse novelão (haters dirão que não é novela, mas é sim) e me apaixonei perdidamente. Porém, como diria aquele clássico do pagode dos anos 90: eu me apaixonei pela pessoa errada, ninguém sabe o quanto eu estou sofrendo.

Quando comecei a adorar Dallas, os problemas da série vieram de brinde. Um pacotão bastante problemático de 14 temporadas, nas quais em 11 o relacionamento abusivo entre as personagens Sue Ellen e J.R é romantizado a todo custo. Escrever esse texto foi muito difícil, pois eu fui a maior shipper desse casal e não é nada fácil perceber que seu ship é na verdade uma cilada. Uma amiga disse que meu texto faria as pessoas boicotarem a série, mas precisava correr esse risco. 

Como já escrevi aqui, eu me identificava muito com a Sue Ellen lá em 2013. Eu achava a coisa mais normal sofrer por amor, se o relacionamento não tivesse problemas era porque havia algo errado. A fragilidade dela era a minha, era a minha incapacidade de lidar com a vida amorosa. A capacidade de achar que um tapa poderia demonstrar amor, ou ainda uma pegada mais forte no braço. Ao escrever sobre o relacionamento abusivo entre Sue Ellen e J.R, eu enterrei de verdade a pessoa que fui em 2013. Foi um funeral lindo.

Isso não me impede de continuar me emocionando com os fanvideos do casal, com a diferença de que, assim como a Adele, fico pensando que eles poderiam ter tido tudo, mas o negócio foi rolling in the deep. Poderia ter sido diferente, e eu fico pistolaça só de pensar nisso. A culpa foi de um plot extremamente tóxico e machista, mas a vida segue, afinal Dallas já terminou há mais de 20 anos, não é?


Também escrevi sobre Pelos bairros do vício, um dos meus filmes favoritos da vida, com a minha atriz favorita da vida, Barbara Stanwyck. Eu não sei porque amo tanto esse filme, se ele só me fez passar nervoso até hoje. Mentira, sei sim e é por causa de Barbara. Ela está tão maravilhosa com seus lindos cabelos brancos que o CARA SURTA. SÓ ME RESTA SURTAR.

Voltando ao assunto sério, o papel de Stanwyck é o de uma cafetina lésbica em um bordel no sul dos EUA. O problema com Pelos bairros do vício é que essa representação LGBT é tóxica e problemática, reforçando estereótipos. Ela é a vilã mais velha e abusiva. É de sofrer demais, mas acho importante olharmos para trás e perceber o quanto tais representações influenciaram o que vemos hoje em dia. Alguns problemas são recorrentes, o que é assustador.

E o que fica tudo isso?


Fica a vontade de não abandonar o blog, porque escrever esses textos é libertador. É diferente de escrever sobre cinema e afins, talvez porque aqui meus sentimentos estejam estampados para todos verem. Que venha mais um BEDA, quem sabe dessa vez eu não cumpra os 31 dias conforme manda o figurino.


Um Comentário

  1. Gosto bastante de "O retrato de Dorian Gray" e ele desgraça minha cabeça pelo mesmo motivo *envelhecer*, morrer tá até tranquilo, é a ideia de envelhecer que me apavora. "O amante" e "A insustentável leveza" são dois dos meus livros preferidos nessa vida, só me faz pensar que preciso logo ler "A casa dos espíritos" já que este segue na sua lista.
    Tem uma imagem construída em "A insustentável..." que carrego comigo: Sabina nua em frente ao espelho com o chapéu coco; a forma como ela se relaciona com a sua imagem espelhada, quase um duplo, um ser e um querer ser. É também muito do que você comentou, da leveza, do se desprender dos pesos. Também me encantei demais por essa personagem. [tem uma adaptação desse livro, você conhece? É de 1988, dirigida pelo Philip Kaufman. Não é muito boa, acho que esse livro tem uma subjetiva muito complicada de transpor para a tela, mas é interessante ver a tentativa de adaptá-lo]

    Obrigada por me citar em seu post, seu blog foi uma das minhas melhores descobertas recentes também (e que veio através do Valkírias! ♥), adoro tudo que você escreve por aqui e nos outros cantos.

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