Ser fangirl: uma arte que eu domino

agosto 15, 2017

Eu gostaria de não parecer ter 16 anos, mas não posso evitar. Quando se trata de ser fã de alguém,  sou, sim, uma adolescente. Não tem meio termo para mim: ou eu amo muito e mergulho fundo na vida da pessoa ou ela não me causa nenhuma sensação.

É engraçado, todas as coisas que eu amei pareceram ter um prazo de validade determinado. Poucas coisas nesta vida continuam me causando a mesma sensação de ter 16 anos quanto Nathalia Timberg. Acho que vocês já sentiram o teor, a seriedade da coisa neste post que escrevi sobre ela.



Na realidade, a parte mais séria desse negócio todo de fangirl eu deixei de contar por motivos de vergonha. Se um dia eu tiver netos, eles pedirão para a vovó contar a história do dia em que ela perseguiu a Nathalia Timberg, que estava em uma cadeira de rodas por conta de um acidente no palco.




Poderia arriscar que essa é uma das melhores história da minha existência até agora.

Aos 26 anos, com uma série de contas para pagar e prazos para cumprir, a vida adulta finalmente parece que cobrará suas contas. Porém, como minha terapeuta já percebeu, eu não sei definir o que é ser adulta. Se ser adulta cobre ser muito esperta e observadora, eu tô dentro. Porque foi uma combinação dessas duas qualidades que me fizeram ser bem-sucedida na perseguição à Nathalia Timberg, no Rio de Janeiro.

Eu e minha namorada ficamos de tocaia na frente do teatro no qual ela estava estrelando sua última peça, O que terá acontecido à Baby Jane?. A ideia de ficar mofando por lá era algo que nos agradava demais, porque nós fomos para o Rio passar nervoso e ver essa peça. Por que não especular o teatro e suas entradas? Foi o que fizemos. O teatro onde seria a peça ficava em uma galeria em Copacabana, uma galeria de antiguidades. Muita coisa bonita e cara, mas o nosso foco imediatamente mudou assim que vimos a famigerada entrada. 

Que entrada? - você pergunta.

A entrada de um vídeo no qual Nathalia aparece chegando para ensaiar a peça. Sim, meus amigos, nós reconhecemos a entrada só de olho. Quando eu disse que tinha 16 anos, não estava brincando, não. Passada a emoção do momento de estar em frente ao pote de ouro que nos levaria a ver Nathalia decidimos nos sentar a uma distância considerável da entrada e começar a observar, como Holmes e Watson. 

Conversamos e rimos muito, até começarmos a ver o elenco chegando. Olha, estamos na direção certa então. Talvez não estivéssemos, ela já poderia ter chegado e estar lá dentro. Eu abri a porta do vídeo, mas fui impedida de entrar pela pessoa racional que é minha namorada. De repente, ela observa, muito bem diga-se de passagem, que uma pessoa da produção está saindo do teatro portando uma cadeira de rodas. A Nathalia estava com um problema na perna na época, e nós associamos imediatamente que ele estava indo buscá-la.

Olha, neste momento, eu gostaria que minha terapeuta estivesse comigo, porque foi quando cheguei no ápice das minhas crises de pânico. Comecei a suar frio e a tremer. O lado racional que me sobrara pediu para minha namorada que cuidasse o andar de cima, eu iria para a rua debaixo cuidar a chegada do carro dele. Eu espero que um dia vocês tenham uma pessoa na vida de vocês que tope esse tipo de coisa e que faça você não se sentir louca. 

Todo mundo deveria, um dia, experimentar a sensação de se sentir o James Bond ou o Tom Cruise em Missão Impossível. É uma ansiedade do caralho, mas é uma coisa muito boa também. Era assim que eu estava me sentindo, me comunicando por SMS com minha namorada, que observava a rua de cima. Ô, KGB, me contrata, por favor! Fiquei no andar de baixo durante uns 15 minutos, e cada carro que chegava despertava o monstro de ansiedade mais assustador que habitava em mim. Não era mais um cara, e sim dois. Dois caras da produção esperando, ah, mas essa mulher tá chegando, e ela deve estar avisando pelo celular, GRITOS. ELA USA CELULAR, RISOS NERVOSOS. SERÁ QUE TEM WHATSAPP? 

E aí, meus amigos, um carro preto ou azul parou e esses caras foram atrás dele. Eu fiquei na tocaia observando, não conseguia ver o banco carona por causa dos vidros. Mas o fã, como o fã é esse ser LOUCO, ele reconhece a mão do seu artista favorito. Eu reconheci que era Nathalia só pela mão que ela colocou pra fora do carro. Dois segundos depois, eu obtive a confirmação máxima: ela desceu do carro.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA



Os SMS trocados com minha namorado nunca pareceram uma coisa tão KGB ou CIA:

É ELA!
DESCE, ELA CHEGOU
MEU DEUS, É ELA
A GENTE SOBE OU DESCE?

Encostei meu rosto na marquise e pedi pra Jesus me acalmar, porque sentia que desmaiaria a qualquer minuto. Sentia o sangue percorrendo meu corpo. Só que Jesus não me deu calma, ele me deu mais ansiedade mesmo. Ao perceber que eles usaram um caminho alternativo para levar Nathalia para o teatro, eu tive uma pequena confusão de lugares com minha namorada. Aquilo só me deixou mais nervosa ainda. Ela não sabia onde me encontrar, eu não sabia para onde ir. Por fim, decidi seguir a mulher pelo caminho alternativo, mas, meus amigos, entrei naquele corredor tão afobada que seria reprovada na prova da KGB. Estava simplesmente estampado na minha cara OI, ESTOU PERSEGUINDO VOCÊS, pois eles estavam parados na frente de uma loja, sem fazer nada. Puta que o pariu, e a vergonha? E a dignidade? Sumiu tudo.

Depois de confusões no estilo Sessão da Tarde, finalmente encontrei minha namorada no saguão. O que faremos? Vamos falar com ela? Não vamos? Vamos? O problema todo residia na cadeira de rodas maldita. Nós não estávamos preparadas para um flop daqueles. Claro, nós já sabíamos, como boas fãs, que ela estava sem andar, mas ver é diferente. Ao vê-la, eu pensei que seria um desrespeito falar com ela.

E aí, Nathalia e os caras da produção e eu e minha namorada nos encontramos acidentalmente na rampa que subia para o teatro. Falamos com ela? A resposta é não! Nós não apenas não falamos com ela como nos atravessamos na frente deles e subimos correndo. KGB, sinto muito, eu não sou a sua melhor espiã! Mãe, desculpe, mas eu não sei ser sociável sem parecer maluca! É claro que ela estava vendo aquela palhaçada toda e pensando que o TV Fama estava atrás dela. 

Eles chegaram até a entrada do teatro, e Nathalia ficou esperando até poderem levá-la para dentro do teatro. O dilema entre eu e minha namorada recomeçava, do outro lado da galeria. A gente fala? A gente não fala? Cara, a gente veio até aqui, nós vamos falar. Quem fala? Eu? Tu? Tu, tu fala. Tá.

Chego na maior humildade para falar com Nathalia e já começo a tomar paulada na cabeça:

- Oi, Nathalia, a gente poderia falar dois segundos contigo?

ELA ME OLHOU EXATAMENTE COMO AS VILÃS DAQUELAS NOVELAS, E EU SENTI UM MEDO DO CARALHO.



- Pode, né.

- A gente veio dar um oi.

- Oi.

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHA, É POR ISSO QUE EU AMO ESSA MULHER! ALSO, MEU DEUS, ELA DEVE ESTAR NOS ODIANDO, SOCORRO.

Eu tinha cinco minutos para contar uma história que leva, no mínimo, 15 minutos para ter começo, meio e fim. Mas fiz. Contei toda minha saga em 2016, do presente que nós lhe demos e mais um pouco da nossa saga no Rio. 

- Ah, aquilo me marcou. Eu lembro, sim.

De vilã de novela, ela se transformou nas últimas personagens dela, tão dócil e amorzinho.

E aí começaram as adulações. Teve beijo no rosto, sim, senhor. Teve pegada na mão, sim, senhor. Teve perguntas sobre a nossa vida pessoal, sim. Mãe, olha como a sua filha é sociável! Mãe, uma celebridade lembra de mim! 

Fim do primeiro ato. Sim, no dia seguinte, teve mais, porque foi o dia em que fomos assistir à peça de teatro. Teve entrega de presente, abraço, pessoal da produção nos odiando e, para coroar toda essa saga, teve euzinha chorando de soluçar na calçada. 

Imagino como meus netos rirão de mim cada vez que eu contar essa história.

Este é meu nível de amor por Nathalia Timberg. 

Depois que voltamos do Rio de Janeiro, achamos que estava mais do que na hora de criar um fã clube para ela no Instagram. Olha meus 16 anos aí! Foi a melhor coisa que fizemos, muitas pessoas importantes do círculo dela, como seus agentes, nos seguem. Eles sabem, mais ou menos, quem somos nós. Olha, eu sinceramente acho que vai ser bem difícil esquecer duas jovens adultas realizando uma perseguição. 

Voltando ao meu lado 26 anos, no domingo passado, as primeiras fotos do espetáculo sobre a estilista Iris Apfel foram divulgadas. Nem preciso dizer quem será a Iris, não é? Mas preciso dizer que entrei um estado de tal frenesi quando vi as fotos, porque foi isso mesmo que eu pedi, fotos e atualizações. É uma droga ser fã de alguém mais ou menos recluso, e naquele domingo tivemos vídeos e fotos até o cu fazer bico, que é pra nós não reclamarmos quando ela sumir. O que ela já fez, é claro.

Seguem as fotos:



E vou ficando por aqui, já passei vergonha demais para um mísero texto.

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