Cinema francês é tudo igual?

agosto 07, 2017




O ano é 2017 e há quem comente no canal do Cine Espresso que odeia cinema francês:

Cinema francês é tedioso

Nossa, mas a gente não entende nada do que eles fazem

O filme acabou e eu não entendi o final

Que história sem pé nem cabeça

KKK, cinema francês, eu hein

O pior é que não posso desmentir o que essas pessoas dizem, porque boa parte disso é verdade. Os filmes franceses são ~tediosos porque simplesmente não seguem a lógica de um filme de Hollywood. A sensação de que a trama é arrastada é porque os meios narrativos do cinema europeu são completamente diferentes do que estamos acostumados. Você precisa estar na vibe para assistir a um filme francês. Não dá para colocar um François Truffaut para rodar e não esperar uma torrente de choro. No entanto, isso não quer dizer que todos os filmes franceses sigam essa cartilha de sem pé e nem cabeça e tédio. Há espaço para tudo no cinema francês, inclusive para filmes mais engraçadinhos, com o Sazon francês, é claro.


Amores parisienses (On connaît la chanson) foi o primeiro francês de comédia da minha vida e que me mostrou que o cinema francês podia nos arrancar boas risadas sem perder sua identidade de filme europeu. Recentemente tive a oportunidade de reassisti-lo no Now e o veredicto foi: segue sendo meu filme francês de comédia favorito.

Elenco de "Amores Parisienses" (On connaît la chanson)

O mais engraçado é que esse filme é do mesmo diretor que fez Hiroshima, mon amour e O ano passado em Marienbad, então você espera muita depressão da trama, certo? Errado! O Alain Resnais tem uma maneira muito divertida de fazer cinema, ele consegue ser até divertido quando seus personagens estão chorando, por exemplo. Foi o que ele fez em Amores Parisienses. A bad, meus amigos, neste filme é divertida. E por quê, Jessica? Porque eles cantam!

Uma pausa para: ELES CANTAM?

Sim, meus amigos, eles cantam. Na verdade, eles dublam músicas francesas famosas. Tem pra todos os gostos: France Gall, Dalida e Alain Delon, Gérard Bécaud, Piaf, etc. Eu, como uma amante da canção francesa do CD mais clichê sobre Paris, é claro que pirei. Quando assisti a esse filme pela primeira vez, em uma mostra por aqui, fiquei cantando as músicas enquanto os espectadores literalmente dormiam do meu lado.

O filme conta a história de Odile Lalande (Sabine Azéma) e de sua irmã, Camille (Agnès Jaoui). Aos poucos, a trama vai nos mostrando os outros personagens, e a trama gira em torno do apartamento que Odile quer muito comprar. É um enredo muito simples e fácil, mas a maneira como Alain Resnais dirige todo o elenco, os atores dublando, tudo torna esse filme uma delícia de assistir. Nem parece ter duas horas.

Minha personagem favorita é Camile, é claro, a irmã ofuscada por Odete e seus dilemas. Camille está escrevendo uma tese sobre algo que ninguém conhece, mas que todos fingem se interessar para não magoá-la. Camille será eu quando terminar a graduação em História, escrevendo uma tese sobre novela. Ela também é guia turística em Paris, profissão pela qual eu tenho um grande apreço.

Camille, personagem de "Amores Parisienses".

Para manter as coisas em família, Sabine Azéma, esposa de Resnais, figura o elenco. Ela fez quase todos os filmes dele, desde os anos 90 até a morte dele, em 2014. O que posso dizer sobre Sabine é que ela atua bem pra caramba e é uma pena que seus grandes trabalhos tenham sido em filmes do marido. Com isso não quero menosprezar sua carreira, mas, poxa, deve ser um porre estar à sombra de Resnais o tempo inteiro. Tudo bem que já assisti a um filme de Sabine que não era dirigido por Alain (Pintar ou fazer amor), mas esse título realmente reforça as ideias sobre cinema francês com as quais abri este post.

Caso você ainda não tenha sido convencido de que há vida no cinema francês, aqui vai uma playlist feita por moi-même com quase todas as canções dubladas pelo elenco no filme:


E para terminar, hoje foi um dia especial para mim, pois finalmente, depois de quase dois anos, coloquei junto com Patrícia um antigo projeto no ar: um blog/site sobre Jeanne Moreau. Hoje faz uma semana que este bichinho nos deixou e acho que não há melhor maneira de celebrar seu legado do que prestigiando nosso humilde site.



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